Hidrogênio e SAF: convergência estratégica para um setor aéreo sustentável

Produção de hidrogênio no Brasil pode acelerar o SAF e ampliar o uso da bioenergia

A transição para uma economia de baixo carbono exige soluções energéticas que combinem sustentabilidade, escala e viabilidade econômica. Nesse contexto, o hidrogênio de baixa emissão de carbono emerge como uma peça-chave global.

Versátil e com múltiplas rotas de produção, ele tem sido apontado como alternativa estratégica para descarbonizar setores como indústria, transportes e produção de fertilizantes.

No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão particular: a integração entre o hidrogênio e a bioenergia. A recente Nota Técnica "Hidrogênio e Biomassa: Oportunidades para produção e uso de hidrogênio em sistemas de bioenergia" (EPE, 2025) evidencia como essa relação pode impulsionar a produção de combustíveis sustentáveis, como o SAF (Sustainable Aviation Fuel), gerar valor à biomassa residual e aproveitar o excedente de energia renovável.

Este texto apresenta alguns pontos da nota, analisando como o hidrogênio pode contribuir diretamente para avançar o uso do SAF no Brasil.

Potencial brasileiro para o hidrogênio: regulação, matriz e oportunidades

Segundo a Nota Técnica da EPE (2025), o Brasil reúne condições únicas para liderar a produção de hidrogênio de baixa emissão. Isso se deve à combinação entre matriz elétrica renovável, disponibilidade de biomassa e avanços regulatórios.

De acordo com dados atualizados da EPE, cerca de 85% da eletricidade gerada no Brasil em 2023 teve origem em fontes renováveis. Esse percentual coloca o país entre os mais limpos do mundo e abre caminho para o uso da eletrólise da água como rota para a produção de hidrogênio verde.

Além disso, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA) o país é o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis e conta com cadeias agroindustriais estruturadas para aproveitamento da biomassa.

Já no âmbito regulatório, a Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, representa um marco para o avanço dessa agenda. Ela reconhece rotas como HEFA e AtJ para produção de SAF, estimula o uso de hidrogênio de baixa emissão e estabelece instrumentos para sua certificação, como o Rehidro.

A legislação também fortalece o RenovaBio, programa que permite valorizar reduções de emissões no setor de biocombustíveis. Com isso, apesar dos desafios, cria-se um ambiente regulatório mais seguro para investimentos em infraestrutura, pesquisa e novas plantas industriais.

Hidrogênio nas rotas de produção de SAF

A produção de SAF pode ocorrer por diferentes caminhos, chamados de rotas tecnológicas. Essas rotas utilizam matérias-primas diversas — como óleos vegetais, álcoois ou biomassa — e em todas elas o hidrogênio aparece como reagente essencial para remoção de oxigênio, ajuste das cadeias carbônicas e conversão em produtos compatíveis com o querosene de aviação.

As principais rotas autorizadas no Brasil incluem a HEFA, que é a mais madura e usa óleos vegetais ou gorduras animais; a AtJ, que converte etanol em hidrocarbonetos; e rotas como FT-SPK e SIP, que também utilizam hidrogênio em processos de síntese.

Segundo projeções da EPE (2025), a demanda de hidrogênio pela rota HEFA pode ultrapassar 320 mil toneladas por ano até 2034. O Gráfico 1 da nota técnica (p. 32) da nota mostra essa evolução com base nos projetos em andamento.

Já a rota AtJ, que aproveita o etanol brasileiro, pode demandar cerca de 92 mil toneladas de H2/ano no mesmo horizonte (Gráfico 2, p. 33).

Vantagens energéticas e oportunidade regional

Atualmente, o Nordeste brasileiro vive um momento desafiador em relação ao excedente de energia renovável. A geração eólica e solar cresce rapidamente, mas a infraestrutura de transmissão nem sempre acompanha o ritmo.

Entretanto, esse cenário pode representar uma oportunidade estratégica: usar esse excedente para produzir hidrogênio via eletrólise, aproveitando fontes limpas e baratas, e direcioná-lo à produção de SAF e outros combustíveis.

Essa solução, além de mitigar o desperdício de geração, pode contribuir para a interiorização da produção de hidrogênio, gerar empregos locais e apoiar políticas de desenvolvimento regional com base em inovação tecnológica e sustentabilidade.

Modelos de sinergia: caminhos para o H₂ no SAF

A Nota Técnica da EPE apresenta uma análise abrangente das possibilidades de integração entre hidrogênio e bioenergia. O hidrogênio pode assumir diversos papéis ao longo das cadeias de produção de biocombustíveis: seja como reagente direto para obtenção de SAF, como insumo para produção de metanol e fertilizantes, ou mesmo como componente essencial na geração de e-combustíveis em sinergia com o CO₂ biogênico.

Essa multiplicidade de aplicações posiciona o hidrogênio como elo de conexão entre os segmentos da bioenergia, ampliando seu valor econômico, seu impacto ambiental positivo e sua relevância estratégica para o Brasil.

Por que acreditamos no potencial do hidrogênio para o avanço do SAF

O hidrogênio de baixa emissão não é apenas uma promessa tecnológica: é um elemento concreto para acelerar o uso de SAF no Brasil. Ao integrar setores como agronegócio, energia e transporte, ele pode transformar excedentes energéticos e biomassa em combustíveis sustentáveis com alto valor agregado.

A RBQAV - Rede Brasileira de Bioquerosene e Hidrocarbonetos Sustentáveis para Aviação tem como propósito atuar como ponte entre ciência, setor produtivo e governo. Promover essa integração é essencial para garantir que o Brasil aproveite suas vantagens comparativas e lidere globalmente a transição para um setor de aviação mais limpo e eficiente.


Fontes

Translate »